terça-feira, 2 de junho de 2026

O Grande Blefe de Seu Valdir

Valdir tinha 57 anos e orgulhava-se de duas coisas na vida: sua horta de couve e sua precisão cirúrgica para prever o tempo. No entanto, naquela terça-feira à tarde, seu sistema de previsão interna falhou miseravelmente.

Tudo começou no almoço. Valdir havia preparado um frango cozido. Estava delicioso, mas ele cometeu o erro clássico de usar a mesma tábua onde cortou o frango cru para picar o coentro do tempero final. O resultado? Uma pequena e silenciosa rebelião bacteriana começou a se organizar em seu trato digestivo.

Umas três horas depois, Valdir estava na sala, assistindo à reprise do futebol. De repente, uma bolha de ar subiu pelo seu abdômen. Parecia apenas mais um daqueles gases inocentes, fruto do feijão de ontem. Ele avaliou o cenário: estava sozinho na sala, a janela estava aberta, o vento estava a favor. Seria um estalo rápido e libertador.

Ele relaxou o corpo e deu o comando para o lançamento.

Pof.

O som não foi o esperado. Não houve o eco seco de um gás livre. Foi um som abafado, úmido e acompanhado por uma sensação térmica quente e suspeita. Um calafrio subiu pela espinha de Valdir.

— Não... — sussurrou para as paredes vazias.

Ele se levantou lentamente, fazendo o "passo do pinguim" — aquela caminhada com as pernas rigidamente coladas para evitar um desastre maior. Chegando ao banheiro, a suspeita se confirmou. O frango havia cobrado seu preço. Era pouca coisa, mas o suficiente para trair a confiança de um homem de quase sessenta anos.

— Maldito frango... — resmungou Valdir, iniciando o protocolo de emergência: chuveirinho, sabonete neutro e a eliminação imediata daquela cueca de guerra.

Já recomposto e com uma cueca limpa, Valdir sentou-se na cozinha com uma vontade avassaladora de tomar um café. Ele pegou o pote de descafeinado, achando que estava sendo prudente. Foi quando, em um estalo de bom senso (ou uma voz amiga na sua cabeça), ele lembrou que até o descafeinado solta o intestino.

Com um suspiro resignado, Valdir guardou o café e colocou uma água para ferver. Cinco minutos depois, ele estava de volta ao sofá, segurando uma xícara morna de chá de camomila. Olhou para a TV, tomou um gole do líquido insosso e pensou que, a partir daquele dia, nunca mais subestimaria um frango. E, acima de tudo, nunca mais confiaria em um pum.

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