Tudo começou no almoço. Valdir havia preparado um
frango cozido. Estava delicioso, mas ele cometeu o erro clássico de usar a
mesma tábua onde cortou o frango cru para picar o coentro do tempero final. O
resultado? Uma pequena e silenciosa rebelião bacteriana começou a se organizar
em seu trato digestivo.
Umas três horas depois, Valdir estava na sala,
assistindo à reprise do futebol. De repente, uma bolha de ar subiu pelo seu
abdômen. Parecia apenas mais um daqueles gases inocentes, fruto do feijão de
ontem. Ele avaliou o cenário: estava sozinho na sala, a janela estava aberta, o
vento estava a favor. Seria um estalo rápido e libertador.
Ele relaxou o corpo e deu o comando para o
lançamento.
Pof.
O som não foi o esperado. Não houve o eco seco de
um gás livre. Foi um som abafado, úmido e acompanhado por uma sensação térmica
quente e suspeita. Um calafrio subiu pela espinha de Valdir.
— Não... — sussurrou para as paredes vazias.
Ele se levantou lentamente, fazendo o "passo
do pinguim" — aquela caminhada com as pernas rigidamente coladas para
evitar um desastre maior. Chegando ao banheiro, a suspeita se confirmou. O
frango havia cobrado seu preço. Era pouca coisa, mas o suficiente para trair a
confiança de um homem de quase sessenta anos.
— Maldito frango... — resmungou Valdir, iniciando o
protocolo de emergência: chuveirinho, sabonete neutro e a eliminação imediata
daquela cueca de guerra.
Já recomposto e com uma cueca limpa, Valdir
sentou-se na cozinha com uma vontade avassaladora de tomar um café. Ele pegou o
pote de descafeinado, achando que estava sendo prudente. Foi quando, em um
estalo de bom senso (ou uma voz amiga na sua cabeça), ele lembrou que até o
descafeinado solta o intestino.
Com um suspiro resignado, Valdir guardou o café e colocou uma água para ferver. Cinco minutos depois, ele estava de volta ao sofá, segurando uma xícara morna de chá de camomila. Olhou para a TV, tomou um gole do líquido insosso e pensou que, a partir daquele dia, nunca mais subestimaria um frango. E, acima de tudo, nunca mais confiaria em um pum.







