Gustavo foi ao supermercado naquela manhã como fazia tantas outras vezes. Nada de especial. Uma compra rápida, alguns pães, algumas coisas para casa e depois de volta para a rotina.
Na padaria, porém, veio a primeira pequena contrariedade do dia.
— O pão vai demorar uns vinte minutos para sair.
Vinte minutos.
Tempo demais para quem havia ido ao supermercado justamente para não perder tempo.
Gustavo pegou o carrinho e resolveu dar uma volta pelos corredores. Talvez encontrasse alguma coisa que tivesse esquecido. Talvez apenas matasse aqueles vinte minutos.
Foi então que a viu.
Ela estava alguns metros adiante, usando óculos e um shorts jeans claro. Não havia nada nela que pudesse ser descrito como extraordinário aos olhos de qualquer pessoa que passasse apressada.
Mas Gustavo parou por um instante.
Havia nela uma beleza comum e, ao mesmo tempo, única.
Uma beleza que não parecia pedir atenção, mas que, por algum motivo, encontrou a dele.
Ele olhou.
Ela também olhou.
Os olhos se encontraram e permaneceram presos um ao outro por alguns segundos.
Não houve sorriso. Não houve palavra. Nenhuma apresentação.
Apenas aquele pequeno instante em que duas pessoas desconhecidas deixam de ser completamente desconhecidas.
Gustavo desviou o olhar e continuou andando.
Pouco depois, voltou à padaria.
Os pães finalmente estavam prontos.
Pegou os seus e foi para o caixa.
Enquanto colocava as compras na esteira, percebeu uma presença conhecida.
Era ela.
O mesmo shorts jeans claro. Os mesmos óculos.
Como se o acaso, por algum capricho, tivesse decidido colocá-los novamente no mesmo lugar.
Ela começou a colocar suas compras no balcão, justamente à frente dele.
Gustavo tentou não olhar diretamente. Observava-a pelo canto dos olhos, fingindo prestar atenção apenas nas próprias compras.
Mas ela também parecia perceber a presença dele.
Os produtos foram passando pelo caixa.
Um.
Dois.
Três.
Até que chegou o último item da compra de Gustavo.
A operadora de caixa olhou para os produtos que estavam sobre o balcão e perguntou, distraidamente:
— É a mesma compra?
Gustavo olhou para as compras dela.
Depois olhou para ela.
Por uma fração de segundo, uma ideia absurda atravessou sua cabeça.
Sim.
Sim, pensou ele.
Naquela realidade que existia apenas dentro de sua imaginação, aquelas compras poderiam ser deles.
Talvez fossem um casal.
Talvez tivessem ido juntos ao supermercado naquela manhã.
Talvez discutissem sobre qual pão levar para casa.
Talvez aquela mulher que agora estava ali, a poucos centímetros dele, fosse alguém que ele conhecesse há anos.
Mas a realidade voltou depressa.
Gustavo sorriu de leve e respondeu:
— Não. Essas compras são da mocinha.
Ele percebeu então um pequeno sorriso no rosto dela.
Talvez ela tivesse entendido a situação.
Talvez tivesse achado graça.
Ou talvez aquele sorriso não significasse absolutamente nada.
Era impossível saber.
Pagaram suas compras.
Saíram do supermercado.
E a vida continuou.
Gustavo nunca mais a viu.
Pelo menos até aquele momento.
Porque há encontros que não duram mais que alguns segundos, mas permanecem na memória por muito mais tempo.
E às vezes ele ainda se pergunta:
E se naquele dia tivesse demorado mais alguns minutos na padaria?
E se tivesse dito alguma coisa?
E se ela também tivesse querido dizer?
Talvez não acontecesse nada.
Talvez acontecesse tudo.
Mas isso é o que torna o acaso tão misterioso.
Aquela manhã terminou como tantas outras.
Duas pessoas fizeram suas compras, pagaram suas contas e seguiram caminhos diferentes.
Só que, por alguns segundos, seus olhos se encontraram.
E talvez, em algum lugar que Gustavo nunca conhecerá, exista uma realidade alternativa onde a resposta para aquela pergunta tenha sido diferente.
— É a mesma compra?
— Sim.
E talvez, naquela realidade, eles tenham ido juntos para casa.







