segunda-feira, 29 de junho de 2026

O Veneno do Especial do Mês

 

Nos nostálgicos anos 80, o sinal do recreio mal tinha terminado de soar no pátio do Colégio Estadual Cenecista e o assunto entre os alunos era um só. Entre o cheiro de quibe frito da cantina e o som de uma fita cassete do The Police tocando num gravador portátil, os jovens do ginásio se amontoavam perto dos degraus da quadra para falar sobre a televisão.

Paulo, de 13 anos, ajeitou a alça da sua mochila de lona e deu um sorriso de canto. Ele estava animado porque, finalmente, tinha o assunto perfeito para puxar com a sua colega de classe da quinta série: Jake, que também tinha 13 anos.
Eles estudavam na mesma sala desde o início do ano, e Paulo era completamente apaixonado por ela. Jake usava uma jaqueta jeans cheia de botons de bandas e marcantes óculos de grau de armação escura, que emolduravam perfeitamente seus longos cabelos castanhos e totalmente lisos, que caíam bem abaixo dos ombros. Sua mistura de visual intelectual com uma autoconfiança de garota rockeira paralisava Paulo. Para a sorte dele, o terror da noite anterior no Especial do Mês da Rede Record tinha quebrado o gelo entre os dois.
— Cara, eu juro que não consegui dormir direito! — dizia Maurício, outro colega da quinta série, gesticulando dramaticamente. — Aquela porra daquele laboratório cheio de gaiolas...
— Deixa de ser frouxo, Maurício — Jake interrompeu, rindo. Ela ajeitou os óculos com a ponta do indicador e jogou uma mecha do cabelo liso castanho para trás do ombro enquanto se encostava na mureta. — O filme foi animal. A Record mandou muito bem em passar esse ontem.
Paulo engoliu em seco, deu um passo à frente e jogou sua cartada, olhando fixamente para ela:
— O doutor Stoner era um psicopata completo. Enganar o David daquele jeito com as falsas injeções de imunização contra picadas... Ele foi transformando o cara aos poucos de disposição. Sabe de uma coisa, Jake? Assistindo ao filme ontem à noite, eu só conseguia pensar em como a Cristina, a filha do cientista, se parece com você. Ela também usa aqueles óculos marcantes de armação escura e tem os cabelos bem lisos. É igualzinha!
Jake deu um sorriso tímido, as bochechas corando de leve por trás das lentes. Ela ajeitou os óculos novamente e fez seu cabelo liso balançar ao inclinar a cabeça.
— Sério? Que legal! Eu achei ela o máximo, super corajosa. E você viu a pele do David mudando e descascando antes? Ele todo indisposto por causa do soro mutagênico... Eu achei aquela transformação progressiva bizarra de boa!
— E a cena do parque de diversões? — emendou Paulo, mantendo o gancho do grande clímax de suspense. — Enquanto o David ficava cada vez pior trancado na fazenda, a Cristina decide ir até aquele parque itinerante. Cara, quando ela entra na tenda do show de bizarrices com aqueles óculos dela...
— Nossa, aquela parte me deu um gelo na espinha! — Jake interrompeu, aproximando-se um pouco mais de Paulo. — A Cristina olha para aquele tanque e vê aquele ser deformado, o "homem-cobra" sem braços nem pernas. O choque dela ao perceber que aquela criatura grotesca era, na verdade, o Tim, o antigo assistente do pai dela que tinha sumido! Ali ela entendeu que o doutor Stoner fazia experimentos humanos.
— Sim! Foi o estalo para ela sair correndo de volta para tentar salvar o David — Paulo completou, empolgado pela sintonia. — Mas o final é muito cruel. O David já tinha se transformado completamente em uma cobra-real gigante. O pior é quando ela chega no laboratório e vê ele naquela forma de serpente, preso no chão lutando a ponto de ser morto por um mangusto. Aquele grito desesperado dela fechando o filme... Que agonia.
Jake olhou para Paulo com atenção, os olhos brilhando por trás dos óculos.
— É verdade... No fundo, é bem triste. O cara perdeu a humanidade dele por completo e virou um bicho racional. Não sobrou nada do David.
O sinal estridente do fim do recreio ecoou pelo pátio, cortando o clima clássico daquela manhã dos anos 80. Os alunos começaram a se dispensar, arrastando os pés de volta para a sala da quinta série.
Jake pegou sua mochila de um ombro só e começou a andar ao lado de Paulo em direção ao corredor. Seus cabelos castanhos desenharam um movimento suave quando ela olhou para ele, dando um leve toque na armação dos óculos que estava escorregando pelo nariz.
— Ei, Paulo... Como a gente senta perto na aula de Ciências, depois você me ajuda a terminar o relatório? A gente pode aproveitar e combinar de assistir ao próximo filme de terror que passar na Record. Quem sabe eu não acho outra personagem parecida comigo?
Paulo sentiu o peito inflar de alegria. Estudar na mesma sala tinha suas vantagens.
— Com certeza. Te ajudo sim, e a gente vai procurar mais sósias suas nos próximos filmes!
Eles entraram juntos na sala de aula. Paulo sentou em sua carteira com um sorriso bobo no rosto, sem se importar com a matéria que viria a seguir. Se o preço para ficar perto de Jake e ganhar a atenção dela era passar a noite acordado na frente da TV, ele faria isso com o maior prazer do mundo.

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